Gaby

A força do traço: da delicadeza ao abismo do corpo.

 

Nós olhamos para o mundo uma vez, quando crianças.

O resto é memória.

Louise Glück

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No livro “A volta ao dia em oitenta mundos”, Júlio Cortázar diz de um sentimento infantil e persistente: a consciência de não estar completamente em lugar algum, algo que se encontra nas crianças e que persiste dentro de si mesmo. Trata-se do sentimento de incompletude que permite que se escape das estruturas que a vida nos arma. Uma espécie de sentimento de excentricidade em relação ao mundo.

 

Na obra de Gaby Alves encontramos manifestações e suportes diversos que conduzem ao território do imaginário popular e da infância. Seu trajeto pode ser entendido como a aglutinação  do lúdico e da dimensão nebulosa da fantasia, espaço ambíguo e excêntrico em que pinturas, colagens, bordados e desenhos saltam, de formas imprecisas, de um universo imaginado de animais, paisagens, motivos religiosos e da cultura.

 

O toque da memória e a marca indelével do tempo se colocam como ferramentas da invenção. Seu trabalho caminha na esteira da arte naif, mas dele podemos retirar profundidades que vão além da associação imediata com o ingênuo, que colocam a espontaneidade e outras nuances como características centrais de uma estética que toca o imaginário popular com alguma ironia e estratégias refinadas: quando a artista borda duas meninas de vermelho e afirma que “meninas usam vermelho”, há crítica social, humor e subversão.

 

Em suas séries de bailarinas ou de nadadoras, podemos encontrar referências da história da arte e também uma amplitude biográfica que se escreve na obra, uma maneira de se construir e reconstruir um corpo a partir de gestos, pinceladas e escolhas que sustentam algo muito próprio, ligado à escala do íntimo – a escala das delicadezas, miudezas e minúcias. Entre fragmentos de memória, palavras e imagens bordadas, cores que abrigam o lusco-fusco das procissões, delineia-se o espaço vivo do trabalho de Gaby Alves.

 

A cintilância de seu trabalho dialoga com a obra de Ana Miguel, artista que se dedica também ao mínimo e ao grandioso da fantasia e das ficções. Há ressonâncias de Heitor dos Prazeres, que pintou crianças brincando com balões e pipas, pulando corda e jogando argolas, jovens em festas juninas e rodas de samba.        Podemos ainda evocar Alfredo Volpi, cuja obra incorpora a tradição moderna de forma muito peculiar.

 

Volpi relutava em aceitar influências ou filiações artísticas e tinha também uma aura de simplicidade, o que contribuiu para que muitos críticos e escritores sublinhassem sua pureza pessoal e artística, bem como a dimensão intuitiva de seu trabalho. Para o crítico Mário Pedrosa, Volpi se ocupava de seres simples, crianças e afazeres cotidianos. Gaby Alves igualmente encontra solo aí, mas seu trabalho ultrapassa o que se apresenta como mera intuição trazendo, em muitos momentos, humor ácido e crítica aguda. Neste aspecto, podemos encontrar eco na obra de Portinari ou, em outro ponto, em Guignard, com as paisagens mineiras que abrigam o grão do mistério. Porém, para além de encontrar lugar para a obra da artista, é interessante perseguirmos a atopia e a vacilação que sustentam sua ética e sua estética.

 

A relação com o bordado vem da relação com a sua tia e é nesse território afetivo que Gaby Alves reinventa um sentido de ancestralidade e escreve um corpo. Nos seus bordados deposita questões de densidade biográfica – a bronquite em pulmões vermelhos, um coração-vulcão, a bexiga –, o corpo em uma gestualidade que evoca tanto a ferida quanto a sutura, sustentando uma questão fundamental para o campo da arte contempôranea: o que move, ou melhor, o que promove a escrita de um corpo? Ou ainda, o que viria a ser a escrita de um corpo?

 

São questões levantadas também por Leonilson, artista plástico atuante desde o final da década de 70 até inicio dos anos 90, que acreditava ser possível afirmar um lugar para o sujeito dentro de seu processo de criação. Como Leonilson, Gaby Alves aproxima seu corpo à obra e evidencia que é o artista quem traz consigo – junto aos objetos produzidos – uma construção de sentido. Trata-se, no entanto, de um sentido ambíguo, um sentido que deseja escapar ao próprio sentido, que é fuga e desvio. Trata-se de um corpo perpassado, atravessado pela palavra e pela imagem. Há o gesto do corpo que experimenta escrever para além da folha de papel. O bordado possui essa função, tanto para Gaby Alves quanto para Leonilson, artistas que nos apresentam um corpo que é escrita, que injeta potência na escrita do mundo, mesmo diante da catástrofe. O bordado traz para a cena o jogo da vida e da dança, o mergulho, imagens que Gaby Alves persegue em diversos momentos nas séries de bailarinas ou nadadoras. Trata-se de um mapeamento dos lugares gestuais em que o sujeito possa advir quando o que está em questão é a possibilidade de apresentação do corpo.

 

Gaby Alves percorre os livros de anatomia num misto de fascinação e sideração para deles extrair algo radicalmente dela: um fazer com o corpo em seus desdobramentos. Na série “Corpo humano para jardim secreto”, flores tão delicadas quanto abissais fundem-se ao corpóreo, promovendo algo de belo, delicado e inquietante. Mapas imaginários a habitar com estranheza perturbadora e viva, um lugar quimérico e intuitivo, um universo religioso e mítico, em cosmologias que misturam o popular e o abissal da fantasia e da memória.

 

A temática religiosa adentra seu trabalho em 2008 e o percorre de diversas maneiras. Da herança do interior de Goiás e Minas Gerais e da lembrança dos signos, como as toalhas pintadas com santos, a artista constitui um universo próprio e se encaminha para as colagens, misturando pintura e sustentando o hibridismo entre materiais distintos e, também, entre pulsações heteróclitas – o universo infantil e religioso, o imaginário popular do país em sua complexidade e estranheza – de ex-votos e a herança barroca até os jogos e a ludicidade impressa na cultura. Há, ainda, uma iconografia do sincretismo religioso e pinturas de santos e figuras como Irmã Dulce, imagens do universo católico e do candomblé, uma romaria, estandartes religiosos e toda a cena de devoção mística que, com pontilhados, ganha profundidade e granulação misteriosa.

 

Na série “Princesas e Rainhas” a técnica da pintura também se coloca a transfigurar e inserir certa fantasmagoria em figuras icônicas como Lady Diana. Em “Bordados do Corpo” elementos de contos de fada se misturam a questões do corpo e por aglutinações – como em Leonilson – as imagens e as palavras vão, algumas vezes, se conectando. Seu processo prima por essa liberdade em que as figuras e as palavras são dispostas quase como no processo de associação livre. A intenção da artista é atribuir sentidos próprios ao trabalho para além da representação, uma fuga dos lugares prontos numa experimentação do próprio corpo nas obras. Uma possibilidade para o corpo, ao tocar outras superfícies – seu contato com o suporte –, de delimitar suas fronteiras e, ao mesmo tempo, rompê-las, dando não apenas vida a seus gestos, como conformando-os em imagens e palavras. É também de fragmentação que se trata, pois esses elementos mínimos – que podem ser os traços, os gestos – são tentativas de subverter as cargas e os valores semânticos impregnados na linguagem, abrindo lacunas e causando estranhamentos.

 

Nas pinturas encontramos também diálogo com Cristina Canale quando, por exemplo,  Gaby Alves usa efeitos de borramento, envelhecimento e granulação, operando a transformação da matéria e reinventando cenas, a partir de fotografias dos anos 60. Cristina Canale – uma artista brasileira que atualmente vive e trabalha em Berlim – pinta cenas prosaicas do cotidiano, muitas vezes também extraídas de fotografias, num processo de transfiguração que resulta em elaborados trabalhos de composição, que transitam numa figuração que se esvai na abstração, abordando a imagem de maneira subjetiva e única, dando destinos diversos para a fantasia. É o que acontece em “Memórias afetivas”, monotipias que, ao retirar os rostos das figuras retratadas, geram efeitos desconcertantes e fantasmáticos e criam uma atmosfera que trata de temáticas como abandono, solidão e desamparo.

 

Não por acaso, o viés subjetivo é também retratado quando a artista borda o consultório de Freud ou se posiciona de maneira sagaz diante de fatos políticos e sanitários como a covid-19. Sua obra, tão irônica quanto potente, mostra Chapeuzinho Vermelho fugindo do vírus e reinventa o quadro “As meninas Cahen d’Anvers” de Renoir – também conhecido como “Rosa e Azul”, obra que faz parte do acerdo do Masp – inserindo máscaras nas meninas. Por outro lado, há trabalhos que revelam uma dedicação quase escapista com discos voadores ou com o Profeta Gentileza. São aspectos ambíguos que conjugam pensamento crítico, leveza, humor, consciência do tempo. E é nesse campo híbrido, entre a doçura e o convulsivo, que se dá seu trabalho: na linha tênue entre a delicadeza e o abismal. De flores e paisagens e galos portugueses, Gaby Alves caminha para aquarelas que remetem diretamente às de Louise Borgeouis – uma artista que também era tecelã das vivências da infância – que trouxe esse efeito-mancha num eterno espírito de investigação psíquica, em trabalhos que criam um parapeito para o abismo do corpo.

 

A obra de Gaby Alves pode criar um campo de imantação – como uma ideia que esteve em jogo na 19ª Bienal de 1987, nomeada “imaginários secundários”: numa pintura que se baseou numa célebre fotografia de Walter Firmo, seu trabalho pode retratar Pixinguinha ou uma índia. O campo plural e nômade em que caminha a artista, dialoga com a proposta da 19ª Bienal, com as noções de imaginário e fantástico em que caberiam produções que estariam à deriva, sujeitas a múltiplos significantes e interpretações, sempre originais e singulares, que escrevem no mundo mais do que uma exaltação ou alegoria de algo, uma abertura para o sensível, um campo de surpresas e indagações. Estão nesse campo os fazeres e imaginário popular que vão além do caráter ilustrativo do tema. Assim afirmou Tereza D’Amico, artista que participou dessa Bienal: “Prefiro o artista sem teorias, sem escolas, porque quando esculpe seu ex-voto, ou pinta uma promessa, ou enfeita um andor, a única coisa que o guia é a força misteriosa de sua cultura tradicional, que ele não analisa, que ele desconhece, mas que ele sente com todas as purezas do puro, e que expressa com toda a sinceridade do incontaminado”.

 

Gaby Alves preserva a inocência de um olhar ainda não corrompido por uma visualidade pronta e sustenta mais do que um retorno ao ingênuo e ao puro. Sustenta também um pathos com seus retratos de família, de princesas ou de anônimos, acompanhados por algumas imagens sombrias, de extração surrealista, com figuras quase mitológicas, espaços fantasmagóricos e densos.

 

O que se coloca em cena é a emergência de um mundo onírico, cativante ao olhar representado pela dimensão mágica, mítica e religiosa, numa cartografia de sublimação, superação, redenção e transcendência. São mapas imaginários que surgem na emergência de um estranhamento perturbador, conjuntos de imagens que constituem-se como contos ou crônicas, figurações que se apropriam de referências populares ou de uma experiência mais solitária, contemplativa e espiritualizada, criando um sentido próprio e trazendo o mundo ao seu mundo. Acompanhar seu percurso é sentir a emergência de um território da vida interior, onde convivem o divino e o informe, aquilo que é corpóreo mas também invisível e inefável, mescla do sacro e confessional  que injeta na vida um olhar potente e, ao mesmo tempo, puro.

Bianca Coutinho Dias – psicanalista e crítica de arte