{"id":47,"date":"2017-07-10T09:30:06","date_gmt":"2017-07-10T09:30:06","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.gabyalves.com.br\/?page_id=47"},"modified":"2021-03-31T11:39:54","modified_gmt":"2021-03-31T14:39:54","slug":"about","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/gabyalves.com.br\/index.php\/about\/","title":{"rendered":"Gaby"},"content":{"rendered":"<p>[vc_section][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;]<div  class=\"wpb_content_element   clearfix\"><style type=\"text\/css\">#ut_am_69db889a0953b { opacity: 1; }#ut_am_wrap_69db889a0953e .ut-image-gallery-item-caption-title h3 { letter-spacing: 0.02em; }#ut_am_wrap_69db889a0953e .ut-gallery-slider-caption { font-weight: bold; }#ut_am_wrap_69db889a0953e { text-align: center; }@media (min-width: 768px) and (max-width: 1024px) { #ut_am_wrap_69db889a0953e { text-align: center !important; } }@media (max-width: 767px) { #ut_am_wrap_69db889a0953e { text-align: center !important; } }<\/style><div id=\"ut_am_wrap_69db889a0953e\" class=\"ut-image-gallery-image \"><div id=\"ut_reveal_69db889a09540\"  data-appear-top-offset=\"auto\" class=\"ut-animated-image-item ut-image-gallery-item ut-animation-done \"><a class=\"ut-deactivated-link\" href=\"#\"><div class=\"ut-animated-image-zoom\"><img class=\"ut-lazy skip-lazy ut-animated-image\"  id=\"ut_am_69db889a0953b\" src=\"data:image\/svg+xml;charset=utf-8,%3Csvg xmlns%3D'http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg' viewBox%3D'0 0 594 444'%2F%3E\" data-src=\"http:\/\/gabyalves.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/GabyAlves.png\" width=\"594\" height=\"444\" alt=\"\"\/><\/div><\/a><\/div><\/div><\/div>[\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;]<div class=\"wpb_content_element \"><style type=\"text\/css\"><\/style><header id=\"ut_header_69db889a09b34\" class=\"section-header ut-no-title-linebreak-mobile ut-no-lead-linebreak-mobile pt-style-7 header-left header-tablet-left header-mobile-center\"><h2 data-title=\"Gaby\"  class=\"section-title  \"><span>Gaby<\/span><\/h2><\/header><\/div>[vc_column_text]<strong>A for\u00e7a do tra\u00e7o: da delicadeza ao abismo do corpo.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s olhamos para o mundo uma vez, quando crian\u00e7as.<\/em><\/p>\n<p><em>O resto \u00e9 mem\u00f3ria.<\/em><\/p>\n<p>Louise Gl\u00fcck<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][vc_custom_heading text=&#8221;FOLLOW ME&#8221; font_container=&#8221;tag:h6|text_align:left&#8221; use_theme_fonts=&#8221;yes&#8221;]<div class=\"wpb_content_element \"><style class=\"bklyn-inline-styles\" type=\"text\/css\">#ut_sf_69db889a0a0d0 li a i { color: #000000; }#ut_sf_69db889a0a0d0 li a:hover i { color: rgba(0,0,0,0.4); }#ut_sf_69db889a0a0d0 li a:focus i { color: rgba(0,0,0,0.4); }#ut_sf_69db889a0a0d0 { font-size: 20px; }<\/style><ul id=\"ut_sf_69db889a0a0d0\" class=\"ut-social-follow-module  ut-social-follow-module-left ut-social-follow-module-tablet-left ut-social-follow-module-mobile-center ut-social-follow-module-20\" data-settings=\"{&quot;animate&quot;:false,&quot;effect&quot;:&quot;&quot;,&quot;delay_animation&quot;:false,&quot;global_delay_animation&quot;:false,&quot;delay_timer&quot;:100,&quot;global_delay_timer&quot;:100}\"><li  class=\"ut-social-follow-0 ut-social-follow-icon-only \"><a class=\"ut-social-follow-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/gabyalves\/\" target=\"_self\" ><i class=\"fa fa-instagram\"><\/i><\/a><\/li><li  class=\"ut-social-follow-1 ut-social-follow-icon-only \"><a class=\"ut-social-follow-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/gabriellafotografa\" target=\"_self\" ><i class=\"fa fa-facebook\"><\/i><\/a><\/li><\/ul><\/div>[\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]No livro \u201cA volta ao dia em oitenta mundos\u201d, J\u00falio Cort\u00e1zar diz de um sentimento infantil e persistente: a consci\u00eancia de n\u00e3o estar completamente em lugar algum, algo que se encontra nas crian\u00e7as e que persiste dentro de si mesmo. Trata-se do sentimento de incompletude que permite que se escape das estruturas que a vida nos arma. Uma esp\u00e9cie de sentimento de excentricidade em rela\u00e7\u00e3o ao mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na obra de Gaby Alves encontramos manifesta\u00e7\u00f5es e suportes diversos que conduzem ao territ\u00f3rio do imagin\u00e1rio popular e da inf\u00e2ncia. Seu trajeto pode ser entendido como a aglutina\u00e7\u00e3o\u00a0 do l\u00fadico e da dimens\u00e3o nebulosa da fantasia, espa\u00e7o amb\u00edguo e exc\u00eantrico em que pinturas, colagens, bordados e desenhos saltam, de formas imprecisas, de um universo imaginado de animais, paisagens, motivos religiosos e da cultura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O toque da mem\u00f3ria e a marca indel\u00e9vel do tempo se colocam como ferramentas da inven\u00e7\u00e3o. Seu trabalho caminha na esteira da arte naif, mas dele podemos retirar profundidades que v\u00e3o al\u00e9m da associa\u00e7\u00e3o imediata com o ing\u00eanuo, que colocam a espontaneidade e outras nuances como caracter\u00edsticas centrais de uma est\u00e9tica que toca o imagin\u00e1rio popular com alguma ironia e estrat\u00e9gias refinadas: quando a artista borda duas meninas de vermelho e afirma que \u201cmeninas usam vermelho\u201d, h\u00e1 cr\u00edtica social, humor e subvers\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em suas s\u00e9ries de bailarinas ou de nadadoras, podemos encontrar refer\u00eancias da hist\u00f3ria da arte e tamb\u00e9m uma amplitude biogr\u00e1fica que se escreve na obra, uma maneira de se construir e reconstruir um corpo a partir de gestos, pinceladas e escolhas que sustentam algo muito pr\u00f3prio, ligado \u00e0 escala do \u00edntimo \u2013 a escala das delicadezas, miudezas e min\u00facias. Entre fragmentos de mem\u00f3ria, palavras e imagens bordadas, cores que abrigam o lusco-fusco das prociss\u00f5es, delineia-se o espa\u00e7o vivo do trabalho de Gaby Alves.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A cintil\u00e2ncia de seu trabalho dialoga com a obra de Ana Miguel, artista que se dedica tamb\u00e9m ao m\u00ednimo e ao grandioso da fantasia e das fic\u00e7\u00f5es. H\u00e1 resson\u00e2ncias de Heitor dos Prazeres, que pintou crian\u00e7as brincando com bal\u00f5es e pipas, pulando corda e jogando argolas, jovens em festas juninas e rodas de samba. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Podemos ainda evocar Alfredo Volpi, cuja obra incorpora a tradi\u00e7\u00e3o moderna de forma muito peculiar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Volpi relutava em aceitar influ\u00eancias ou filia\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e tinha tamb\u00e9m uma aura de simplicidade, o que contribuiu para que muitos cr\u00edticos e escritores sublinhassem sua pureza pessoal e art\u00edstica, bem como a dimens\u00e3o intuitiva de seu trabalho. Para o cr\u00edtico M\u00e1rio Pedrosa, Volpi se ocupava de seres simples, crian\u00e7as e afazeres cotidianos. Gaby Alves igualmente encontra solo a\u00ed, mas seu trabalho ultrapassa o que se apresenta como mera intui\u00e7\u00e3o trazendo, em muitos momentos, humor \u00e1cido e cr\u00edtica aguda. Neste aspecto, podemos encontrar eco na obra de Portinari ou, em outro ponto, em Guignard, com as paisagens mineiras que abrigam o gr\u00e3o do mist\u00e9rio. Por\u00e9m, para al\u00e9m de encontrar lugar para a obra da artista, \u00e9 interessante perseguirmos a atopia e a vacila\u00e7\u00e3o que sustentam sua \u00e9tica e sua est\u00e9tica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o com o bordado vem da rela\u00e7\u00e3o com a sua tia e \u00e9 nesse territ\u00f3rio afetivo que Gaby Alves reinventa um sentido de ancestralidade e escreve um corpo. Nos seus bordados deposita quest\u00f5es de densidade biogr\u00e1fica \u2013 a bronquite em pulm\u00f5es vermelhos, um cora\u00e7\u00e3o-vulc\u00e3o, a bexiga \u2013, o corpo em uma gestualidade que evoca tanto a ferida quanto a sutura, sustentando uma quest\u00e3o fundamental para o campo da arte contemp\u00f4ranea: o que move, ou melhor, o que promove a escrita de um corpo? Ou ainda, o que viria a ser a escrita de um corpo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e3o quest\u00f5es levantadas tamb\u00e9m por Leonilson, artista pl\u00e1stico atuante desde o final da d\u00e9cada de 70 at\u00e9 inicio dos anos 90, que acreditava ser poss\u00edvel afirmar um lugar para o sujeito dentro de seu processo de cria\u00e7\u00e3o. Como Leonilson, Gaby Alves aproxima seu corpo \u00e0 obra e evidencia que \u00e9 o artista quem traz consigo \u2013 junto aos objetos produzidos \u2013 uma constru\u00e7\u00e3o de sentido. Trata-se, no entanto, de um sentido amb\u00edguo, um sentido que deseja escapar ao pr\u00f3prio sentido, que \u00e9 fuga e desvio. Trata-se de um corpo perpassado, atravessado pela palavra e pela imagem. H\u00e1 o gesto do corpo que experimenta escrever para al\u00e9m da folha de papel. O bordado possui essa fun\u00e7\u00e3o, tanto para Gaby Alves quanto para Leonilson, artistas que nos apresentam um corpo que \u00e9 escrita, que injeta pot\u00eancia na escrita do mundo, mesmo diante da cat\u00e1strofe. O bordado traz para a cena o jogo da vida e da dan\u00e7a, o mergulho, imagens que Gaby Alves persegue em diversos momentos nas s\u00e9ries de bailarinas ou nadadoras. Trata-se de um mapeamento dos lugares gestuais em que o sujeito possa advir quando o que est\u00e1 em quest\u00e3o \u00e9 a possibilidade de apresenta\u00e7\u00e3o do corpo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gaby Alves percorre os livros de anatomia num misto de fascina\u00e7\u00e3o e sidera\u00e7\u00e3o para deles extrair algo radicalmente dela: um fazer com o corpo em seus desdobramentos. Na s\u00e9rie \u201cCorpo humano para jardim secreto\u201d, flores t\u00e3o delicadas quanto abissais fundem-se ao corp\u00f3reo, promovendo algo de belo, delicado e inquietante. Mapas imagin\u00e1rios a habitar com estranheza perturbadora e viva, um lugar quim\u00e9rico e intuitivo, um universo religioso e m\u00edtico, em cosmologias que misturam o popular e o abissal da fantasia e da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A tem\u00e1tica religiosa adentra seu trabalho em 2008 e o percorre de diversas maneiras. Da heran\u00e7a do interior de Goi\u00e1s e Minas Gerais e da lembran\u00e7a dos signos, como as toalhas pintadas com santos, a artista constitui um universo pr\u00f3prio e se encaminha para as colagens, misturando pintura e sustentando o hibridismo entre materiais distintos e, tamb\u00e9m, entre pulsa\u00e7\u00f5es heter\u00f3clitas \u2013 o universo infantil e religioso, o imagin\u00e1rio popular do pa\u00eds em sua complexidade e estranheza \u2013 de ex-votos e a heran\u00e7a barroca at\u00e9 os jogos e a ludicidade impressa na cultura. H\u00e1, ainda, uma iconografia do sincretismo religioso e pinturas de santos e figuras como Irm\u00e3 Dulce, imagens do universo cat\u00f3lico e do candombl\u00e9, uma romaria, estandartes religiosos e toda a cena de devo\u00e7\u00e3o m\u00edstica que, com pontilhados, ganha profundidade e granula\u00e7\u00e3o misteriosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na s\u00e9rie \u201cPrincesas e Rainhas\u201d a t\u00e9cnica da pintura tamb\u00e9m se coloca a transfigurar e inserir certa fantasmagoria em figuras ic\u00f4nicas como Lady Diana. Em \u201cBordados do Corpo\u201d elementos de contos de fada se misturam a quest\u00f5es do corpo e por aglutina\u00e7\u00f5es \u2013 como em Leonilson \u2013 as imagens e as palavras v\u00e3o, algumas vezes, se conectando. Seu processo prima por essa liberdade em que as figuras e as palavras s\u00e3o dispostas quase como no processo de associa\u00e7\u00e3o livre. A inten\u00e7\u00e3o da artista \u00e9 atribuir sentidos pr\u00f3prios ao trabalho para al\u00e9m da representa\u00e7\u00e3o, uma fuga dos lugares prontos numa experimenta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo nas obras. Uma possibilidade para o corpo, ao tocar outras superf\u00edcies \u2013 seu contato com o suporte \u2013, de delimitar suas fronteiras e, ao mesmo tempo, romp\u00ea-las, dando n\u00e3o apenas vida a seus gestos, como conformando-os em imagens e palavras. \u00c9 tamb\u00e9m de fragmenta\u00e7\u00e3o que se trata, pois esses elementos m\u00ednimos \u2013 que podem ser os tra\u00e7os, os gestos \u2013 s\u00e3o tentativas de subverter as cargas e os valores sem\u00e2nticos impregnados na linguagem, abrindo lacunas e causando estranhamentos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nas pinturas encontramos tamb\u00e9m di\u00e1logo com Cristina Canale quando, por exemplo,\u00a0 Gaby Alves usa efeitos de borramento, envelhecimento e granula\u00e7\u00e3o, operando a transforma\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria e reinventando cenas, a partir de fotografias dos anos 60. Cristina Canale \u2013 uma artista brasileira que atualmente vive e trabalha em Berlim \u2013 pinta cenas prosaicas do cotidiano, muitas vezes tamb\u00e9m extra\u00eddas de fotografias, num processo de transfigura\u00e7\u00e3o que resulta em elaborados trabalhos de composi\u00e7\u00e3o, que transitam numa figura\u00e7\u00e3o que se esvai na abstra\u00e7\u00e3o, abordando a imagem de maneira subjetiva e \u00fanica, dando destinos diversos para a fantasia. \u00c9 o que acontece em \u201cMem\u00f3rias afetivas\u201d, monotipias que, ao retirar os rostos das figuras retratadas, geram efeitos desconcertantes e fantasm\u00e1ticos e criam uma atmosfera que trata de tem\u00e1ticas como abandono, solid\u00e3o e desamparo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, o vi\u00e9s subjetivo \u00e9 tamb\u00e9m retratado quando a artista borda o consult\u00f3rio de Freud ou se posiciona de maneira sagaz diante de fatos pol\u00edticos e sanit\u00e1rios como a covid-19. Sua obra, t\u00e3o ir\u00f4nica quanto potente, mostra Chapeuzinho Vermelho fugindo do v\u00edrus e reinventa o quadro \u201cAs meninas Cahen d&#8217;Anvers\u201d de Renoir \u2013 tamb\u00e9m conhecido como \u201cRosa e Azul\u201d, obra que faz parte do acerdo do Masp \u2013 inserindo m\u00e1scaras nas meninas. Por outro lado, h\u00e1 trabalhos que revelam uma dedica\u00e7\u00e3o quase escapista com discos voadores ou com o Profeta Gentileza. S\u00e3o aspectos amb\u00edguos que conjugam pensamento cr\u00edtico, leveza, humor, consci\u00eancia do tempo. E \u00e9 nesse campo h\u00edbrido, entre a do\u00e7ura e o convulsivo, que se d\u00e1 seu trabalho: na linha t\u00eanue entre a delicadeza e o abismal. De flores e paisagens e galos portugueses, Gaby Alves caminha para aquarelas que remetem diretamente \u00e0s de Louise Borgeouis \u2013 uma artista que tamb\u00e9m era tecel\u00e3 das viv\u00eancias da inf\u00e2ncia \u2013 que trouxe esse efeito-mancha num eterno esp\u00edrito de investiga\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, em trabalhos que criam um parapeito para o abismo do corpo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A obra de Gaby Alves pode criar um campo de imanta\u00e7\u00e3o \u2013 como uma ideia que esteve em jogo na 19\u00aa Bienal de 1987, nomeada \u201cimagin\u00e1rios secund\u00e1rios\u201d: numa pintura que se baseou numa c\u00e9lebre fotografia de Walter Firmo, seu trabalho pode retratar Pixinguinha ou uma \u00edndia. O campo plural e n\u00f4made em que caminha a artista, dialoga com a proposta da 19\u00aa Bienal, com as no\u00e7\u00f5es de imagin\u00e1rio e fant\u00e1stico em que caberiam produ\u00e7\u00f5es que estariam \u00e0 deriva, sujeitas a m\u00faltiplos significantes e interpreta\u00e7\u00f5es, sempre originais e singulares, que escrevem no mundo mais do que uma exalta\u00e7\u00e3o ou alegoria de algo, uma abertura para o sens\u00edvel, um campo de surpresas e indaga\u00e7\u00f5es. Est\u00e3o nesse campo os fazeres e imagin\u00e1rio popular que v\u00e3o al\u00e9m do car\u00e1ter ilustrativo do tema. Assim afirmou Tereza D&#8217;Amico, artista que participou dessa Bienal: \u201cPrefiro o artista sem teorias, sem escolas, porque quando esculpe seu ex-voto, ou pinta uma promessa, ou enfeita um andor, a \u00fanica coisa que o guia \u00e9 a for\u00e7a misteriosa de sua cultura tradicional, que ele n\u00e3o analisa, que ele desconhece, mas que ele sente com todas as purezas do puro, e que expressa com toda a sinceridade do incontaminado\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gaby Alves preserva a inoc\u00eancia de um olhar ainda n\u00e3o corrompido por uma visualidade pronta e sustenta mais do que um retorno ao ing\u00eanuo e ao puro. Sustenta tamb\u00e9m um <em>pathos<\/em> com seus retratos de fam\u00edlia, de princesas ou de an\u00f4nimos, acompanhados por algumas imagens sombrias, de extra\u00e7\u00e3o surrealista, com figuras quase mitol\u00f3gicas, espa\u00e7os fantasmag\u00f3ricos e densos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que se coloca em cena \u00e9 a emerg\u00eancia de um mundo on\u00edrico, cativante ao olhar representado pela dimens\u00e3o m\u00e1gica, m\u00edtica e religiosa, numa cartografia de sublima\u00e7\u00e3o, supera\u00e7\u00e3o, reden\u00e7\u00e3o e transcend\u00eancia. S\u00e3o mapas imagin\u00e1rios que surgem na emerg\u00eancia de um estranhamento perturbador, conjuntos de imagens que constituem-se como contos ou cr\u00f4nicas, figura\u00e7\u00f5es que se apropriam de refer\u00eancias populares ou de uma experi\u00eancia mais solit\u00e1ria, contemplativa e espiritualizada, criando um sentido pr\u00f3prio e trazendo o mundo ao seu mundo. Acompanhar seu percurso \u00e9 sentir a emerg\u00eancia de um territ\u00f3rio da vida interior, onde convivem o divino e o informe, aquilo que \u00e9 corp\u00f3reo mas tamb\u00e9m invis\u00edvel e inef\u00e1vel, mescla do sacro e confessional\u00a0 que injeta na vida um olhar potente e, ao mesmo tempo, puro.<\/p>\n<p><em>Bianca Coutinho Dias \u2013 psicanalista e cr\u00edtica de arte<\/em>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][\/vc_section]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_section][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_column_text]A for\u00e7a do tra\u00e7o: da delicadeza ao abismo do corpo. &nbsp; N\u00f3s olhamos para o mundo uma vez, quando crian\u00e7as. O resto \u00e9 mem\u00f3ria. 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